escritor · incógnito · irresponsável
Escreve sobre coisas sérias com a seriedade que elas merecem — nenhuma.
continuar a lerQuem é este indivíduo
Isul Sacul é escritor. Esta frase, simples na sua brutalidade, é tudo o que se sabe com certeza. O resto — nacionalidade, idade, número de gatos, opiniões sobre o pato à Brás — permanece envolto no mesmo mistério que rodeia as grandes questões da humanidade, como o sentido da vida ou a razão pela qual as meias desaparecem na máquina de lavar.
Usa um pseudónimo não porque seja uma celebridade tentando manter a privacidade, mas exatamente pelo oposto: é completamente desconhecido e prefere manter assim até ter algo decente para mostrar. Ou para sempre. Ambas as opções têm o seu charme.
Interessa-se pela condição humana — especialmente pela parte em que os humanos inventam histórias grandiosas sobre si próprios e depois acreditam nelas com uma convicção assustadora. É nesse espaço fértil entre a crença e o ridículo que Isul Sacul gosta de passar os fins de semana.
Documento histórico
À semelhança dos grandes mestres da pintura que imortalizaram o próprio rosto com pincéis e óleo, Isul Sacul decidiu imortalizar a própria irrelevância com palavras e alguma insolência. Segue-se o resultado.
Por que escreve sob pseudónimo?
Por várias razões igualmente nobres. Primeira: protege a minha família do embaraço. Segunda: protege-me a mim do sucesso prematuro, que é notoriamente difícil de gerir. Terceira, e mais honesta: Isul Sacul soa infinitamente mais a escritor sério do que o meu nome verdadeiro, que soa a técnico de ar condicionado.
Fale-nos do seu livro sobre Ben Dover.
Ben Dover é um médium. Não por vocação — ninguém escolhe ouvir mortos por vocação, da mesma forma que ninguém escolhe trabalhar em call center. Aconteceu-lhe. O que o distingue dos outros médiuns é que ele resolve entrevistar os mortos mais famosos da história e publicar as transcrições. Jesus ficou horrorizado com o Natal. Maomé não sabia o que era uma bomba. Os vivos, como era de esperar, ficaram indignados. Os mortos, pelo menos, tiveram a graça de se rir.
Não tem medo de ofender pessoas?
Tenho imenso respeito pelas pessoas. É precisamente por isso que não as trato como frágeis. A sátira existe desde que os humanos inventaram a religião, que foi aproximadamente ao mesmo tempo que inventaram a necessidade de sátira. Voltaire ofendeu. Swift ofendeu. Eu, modestamente, aspiro a ofender — mas apenas aquelas certezas que já deviam ter sido questionadas há séculos e que, por alguma razão, ainda passeiam por aí com ar de proprietárias.
Que escritores o influenciaram?
Todos os que tive a sorte de não conhecer pessoalmente. A admiração literária sobrevive muito melhor à distância. Dostoiévski seria insuportável num jantar. Kafka, provavelmente não aparecia. Faulkner chegaria bêbado. Prefiro tê-los nas prateleiras, onde se comportam exemplarmente.
O que espera alcançar com a sua escrita?
A imortalidade, claro. Mas aceitaria, como consolação, que uma pessoa que eu nunca conhecerei leia uma frase minha às três da manhã, ria sozinha no escuro, e pense "alguém percebeu". É um objetivo humilde. Também aceitaria um prémio literário, mas com menos urgência.
O que foi cometido até agora
Romance · Em progresso
Ben Dover tem o dom raro e inconveniente de conseguir falar com os mortos. Quando decide entrevistar as figuras mais veneradas da história humana, descobre que nenhuma delas pediu para ser venerada — e que a maioria ficaria bastante perturbada em ver o que foi feito em seu nome. Uma investigação jornalística ao além, com todas as limitações éticas que isso implica.
Sátira religiosaA revelar · Brevemente
Existem. Estão a ser tratados com a seriedade que merecem, o que significa que estão numa gaveta, à espera de que o autor ganhe coragem ou perca a vergonha — dois estados que, na prática, são indistinguíveis.
MistérioCorrespondência
Para editores interessados, leitores curiosos,
ou críticos que queiram discordar — todos são bem-vindos.
Os teólogos furiosos, também.
* O autor responde. Eventualmente. Quando o humor lho permite.