escritor · incógnito · irresponsável

Isul
Sacul

Escreve sobre coisas sérias com a seriedade que elas merecem — nenhuma.

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Sobre o autor
(na medida em que isso é seguro revelar)

Isul Sacul é escritor. Esta frase, simples na sua brutalidade, é tudo o que se sabe com certeza. O resto — nacionalidade, idade, número de gatos, opiniões sobre o pato à Brás — permanece envolto no mesmo mistério que rodeia as grandes questões da humanidade, como o sentido da vida ou a razão pela qual as meias desaparecem na máquina de lavar.

Usa um pseudónimo não porque seja uma celebridade tentando manter a privacidade, mas exatamente pelo oposto: é completamente desconhecido e prefere manter assim até ter algo decente para mostrar. Ou para sempre. Ambas as opções têm o seu charme.

Interessa-se pela condição humana — especialmente pela parte em que os humanos inventam histórias grandiosas sobre si próprios e depois acreditam nelas com uma convicção assustadora. É nesse espaço fértil entre a crença e o ridículo que Isul Sacul gosta de passar os fins de semana.

"A minha fotografia de autor mostraria alguém pensativo a olhar para o horizonte, com uma chávena de café. Poupei-vos a isso. É o único ato de generosidade confirmado da minha carreira."

A Auto-Entrevista

À semelhança dos grandes mestres da pintura que imortalizaram o próprio rosto com pincéis e óleo, Isul Sacul decidiu imortalizar a própria irrelevância com palavras e alguma insolência. Segue-se o resultado.

I Vida Circunstâncias atenuantes

Comecemos pelo princípio. Onde nasceu?

Em Lisboa, Portugal. E sozinho.

Não no sentido filosófico. No sentido obstétrico.

A minha mãe estava numa sala da maternidade, sozinha, quando decidi nascer sem esperar por médicos, enfermeiros ou qualquer outra forma de supervisão adulta. Apareci cabeçudo, com quatro quilos, a minha mãe desmaiou e eu fiquei ali a chorar.

Felizmente, uma mulher que passava no corredor ouviu-me e avisou um médico: — Olhe que chora ali um bebé.

Foram a correr. E ainda aqui estou.

Gosto de pensar que a vida decidiu começar logo com uma demonstração prática da condição humana: chegamos sozinhos, gritamos para que alguém repare em nós e passamos o resto da existência à procura de alguém que nos faça esquecer que, tecnicamente, continuamos sozinhos.

É uma conclusão excessivamente profunda para retirar de um bebé de quatro quilos. Mas eu era bastante cabeçudo.

De onde vinha a sua família?

Do Alentejo.

Os meus pais eram trabalhadores do campo e pertenciam àquela geração que saiu do interior para o litoral no final da Guerra Colonial e em torno da Revolução de Abril, à procura de uma coisa que na altura se chamava simplesmente uma vida melhor.

Hoje talvez tivesse um nome mais sofisticado. Mobilidade socioeconómica. Na altura era apanhar o autocarro e ir embora.

O meu pai tinha combatido na Guiné-Bissau antes de casar. Depois do casamento, os meus pais chegaram a partilhar casa com familiares em Queluz, numa altura em que Queluz ainda estava a decidir se queria tornar-se cidade ou estacionamento.

Ambos tinham a quarta classe. A minha mãe trabalhou em fábricas, limpezas e tudo aquilo que aparecesse. O meu pai foi vendedor de praticamente tudo: peças de automóveis, marisco e outras coisas que provavelmente já esqueci.

Sempre os considerei pessoas muito inteligentes. O problema é que inteligência e oportunidade são duas coisas diferentes, embora gostemos de fingir que não para tornar as histórias de sucesso mais inspiradoras.

Quem cresce na miséria aprende algumas lições úteis, como trabalhar, poupar e não desperdiçar comida. Aprende também outras menos úteis: não arriscar, não confiar demasiado na sorte e desconfiar de qualquer oportunidade que pareça demasiado boa.

Os meus pais trouxeram essa bagagem emocional do campo. Não pagava excesso no transporte, mas nós, filhos, viajámos com ela.

Cresceu com dificuldades económicas?

Sim. Desde que existo, lembro-me de pelo menos três crises económicas importantes. Aparentemente tenho um talento especial para estar vivo quando os mercados entram em pânico.

Os meus pais sofreram e nós sofremos por tabela. Sobretudo durante a adolescência, houve períodos financeiramente difíceis.

Mas não gosto de transformar isso numa história de miséria épica. Tínhamos casa, comida e pais que trabalhavam. Simplesmente havia coisas que outras famílias compravam e nós não.

Na altura parecia uma injustiça cósmica. Depois crescemos e percebemos que o cosmos estava ocupado com assuntos mais importantes.

Que criança era?

Durante quase seis anos fui filho único. Isso ensinou-me a brincar sozinho, o que mais tarde se revelou uma excelente preparação para várias coisas: ler, escrever e suportar reuniões.

Sempre fui curioso. Também era introvertido. Mais ou menos.

Digo isto porque sempre consegui meter conversa com desconhecidos e muitas vezes fui a alma da festa, o que prejudica um pouco o currículo de introvertido.

Nunca percebi essa necessidade de dividir as pessoas entre introvertidas e extrovertidas. Eu gosto de estar sozinho. Também gosto de pessoas. Desde que não sejam todas ao mesmo tempo.

Disse que foi, em grande parte, criado por mulheres.

Sim. Entre os meus sete e os doze anos, o meu pai e muitos dos homens da família trabalhavam fora durante a semana e só regressavam ao fim de semana. As minhas memórias desses anos são sobretudo femininas.

Passávamos muitos serões em casa da minha avó materna, com a minha mãe e as três irmãs dela. Quatro mulheres a conversar numa sala produzem mais informação por minuto do que muitos serviços secretos.

Eu não participava. Ouvia. Ou pelo menos parecia que não participava. As pessoas dizem coisas extraordinárias quando acham que uma criança não está a prestar atenção.

Talvez tenha aprendido aí uma das competências mais úteis para escrever: ficar calado. Ainda estou a tentar recuperar essa capacidade.

E os livros?

Vieram muito cedo. Os meus pais liam e havia livros em casa, mas não havia dinheiro suficiente para acompanhar a velocidade a que eu queria lê-los. Sobretudo banda desenhada.

Quando tinha sete ou oito anos, passava muito tempo numa papelaria a ler os livros que estavam à venda. A dona deve ter tido pena de mim — ou então percebeu que eu era demasiado pequeno para constituir uma ameaça comercial séria — e começou a emprestar-mos.

A condição era simples: tinham de regressar impecáveis. Li talvez uma centena. Estraguei dois. Os meus pais tiveram de os pagar. Uma taxa de incumprimento de dois por cento. Hoje provavelmente poderia gerir um banco.

Também tínhamos enciclopédias em casa. Se houvesse desenhos, mapas, esquemas ou infografias, eu lia tudo. Não queria apenas histórias. Queria perceber como as coisas funcionavam. Ainda quero. Só descobri entretanto que muitas não funcionam.

Gostava da escola?

Sim e não. Gostava de aprender. A escola era uma questão mais complexa.

Quando temos nove anos, esquecer os trabalhos de casa pode parecer uma tragédia comparável à queda de Constantinopla. Depois crescemos, começamos a pagar impostos e percebemos que Constantinopla até teve sorte.

Usei a biblioteca da escola desde muito cedo e continuei a usá-la até sair. Era provavelmente um dos lugares onde me sentia mais confortável. Os livros têm essa vantagem sobre as pessoas: podemos fechá-los quando começam a aborrecer-nos.

Começou a trabalhar aos treze anos?

Sim. Às sextas e sábados à noite, numa padaria. Entrava por volta das oito da noite e saía às onze ou doze do dia seguinte. Tinha treze anos.

Hoje esta frase provavelmente exigiria a presença de um inspetor do trabalho. Na altura exigia apenas que eu aparecesse à hora certa.

Ganhava cinco contos por noite — cinco mil escudos, para benefício das gerações que nasceram depois de Portugal ter decidido que compreender dinheiro seria demasiado simples. Ao fim do mês conseguia ganhar cerca de quarenta contos, aproximadamente o salário mínimo da época.

Portanto, aos treze anos ganhava mais dinheiro do que seria aconselhável entregar a alguém cuja principal experiência financeira até então consistia em comprar pastilhas elásticas.

Em que gastava o dinheiro?

Primeiro em coisas que os meus pais não podiam comprar. No primeiro mês comprei o primeiro leitor de VHS lá de casa. Depois uma aparelhagem Hi-Fi com gira-discos, leitor de cassetes e equalizador. Na época, para ouvir uma música eram necessários vários aparelhos, cabos e alguma formação técnica.

Também comecei a comprar ténis e polos de marca. Queria vestir-me como os miúdos ricos.

As calças Levi's eram cinco contos e chegavam através de uma senhora que as arranjava por vias comerciais alternativas. Íamos comprá-las à noite. Era contrabando. Hoje provavelmente teria um perfil no Instagram e chamar-lhe-íamos empreendedorismo disruptivo.

Trabalhar tão cedo aproximou-o dos adultos?

Demasiado. Trabalhava com pessoas de dezanove, vinte anos ou mais. Comecei a sair com elas, a beber, a fumar e, de vez em quando, a tentar entrar em discotecas.

Às vezes conseguia. Outras vezes descobria que os seguranças possuíam conhecimentos surpreendentemente rigorosos de matemática aplicada à idade.

Quando não podia entrar à noite, havia as matinés aos domingos, normalmente das três da tarde às nove. Permitiram a várias gerações cometer erros de adolescente em horário compatível com o jantar.

Também teve uma banda.

Aos dezasseis anos. Metal. Eu era vocalista. Estava absolutamente convencido de que seria o próximo Freddie Mercury.

O facto de não cantar como Freddie Mercury, não ter a presença de palco de Freddie Mercury e não existir qualquer interesse conhecido da indústria musical no projeto pareceu-me um conjunto de detalhes administrativos.

O primeiro metal que me marcou foi Alice Cooper. Depois veio tudo o resto. Naquela idade acreditamos que o mundo está à espera de nos descobrir. É uma fase bonita. O mundo normalmente não recebeu o memorando.

E as raparigas?

Eu andava atrás delas. Elas, em geral, demonstravam uma capacidade admirável para manter a distância.

Não tinha propriamente o look que procuravam e era espalhafatoso. Cantava no autocarro, inventava anedotas, fazia disparates. Queria pôr toda a gente a rir.

Provavelmente já havia ali qualquer coisa que mais tarde acabaria nos livros. Ou então era apenas um adolescente irritante. As duas hipóteses não são incompatíveis.

Tinha um plano para a vida?

Evidentemente. Quando somos novos acreditamos que o futuro é uma espécie de formulário: escolhemos as opções certas, carregamos em "submeter" e aguardamos aprovação.

Queria ser cientista. Fui para Química no décimo ano. Entrei numa escola exigente e depressa percebi que gostar de ciência e possuir conhecimentos científicos suficientes para passar de ano eram conceitos relacionados, mas não idênticos.

Tive positiva praticamente apenas a Química, o que pelo menos demonstrava coerência temática. Eu e alguns colegas anulámos a matrícula. Foi o meu primeiro grande reajustamento estratégico. Uma expressão empresarial para "isto correu mal".

E foi para um curso profissional.

Um dos primeiros em Portugal. Técnico de Comunicação, Marketing, Relações Públicas e Publicidade.

A ideia era condensar em três anos aquilo que os licenciados estudavam durante cinco e colocar no mercado jovens suficientemente preparados para fazer trabalho semelhante por muito menos dinheiro. Era uma espécie de inovação pedagógica com vantagens salariais para terceiros.

Estudei marketing a sério. Li o Mercator de ponta a ponta. Comprava todos os meses a revista Exame. Inventava negócios, desenhava organigramas, planeava processos. Queria ser CEO.

Infelizmente faltou um pequeno detalhe. A empresa.

Fez estágios na área?

Numa rádio e numa empresa de publicidade. Na publicidade fazia paginação, design e tudo aquilo que fosse necessário.

"Tudo aquilo que fosse necessário" é uma expressão profissional muito útil porque pode significar criar uma campanha publicitária ou pregar um cartaz num poste. Fiz ambos. Também decorava viaturas com vinil autocolante.

Sobretudo na compreensão de que a criatividade frequentemente termina com alguém a dizer: — Está muito bonito. Agora vai ali colar isto à carrinha.

E depois do décimo segundo ano?

Fui trabalhar. Primeiro num jornal. Depois em empregos temporários, fábricas, construção civil e outras atividades destinadas a financiar a inconveniência de estar vivo.

Tentei entrar num curso de cinema durante três anos. Não consegui. Queria ser realizador. O cinema foi uma daquelas paixões que me acompanhou durante muito tempo sem nunca ter a delicadeza de se transformar numa profissão.

Em 1998 fui para a tropa. O serviço militar ainda era obrigatório para quem não entrasse imediatamente na universidade. Eu já vivia com uma namorada numa casa alugada. O soldo de soldado era talvez vinte ou trinta contos por mês. Não chegava para a renda.

Durante a semana servia a pátria. Ao fim de semana trabalhava na construção civil para servir o senhorio. É difícil encontrar uma introdução mais rigorosa à vida adulta.

Éramos dois miúdos convencidos de que já éramos adultos. A relação acabou por não sobreviver às dificuldades. Às vezes dizemos que o amor vence tudo. É uma frase bonita. Devia vir acompanhada de uma simulação de crédito.

Depois trabalhou em publicidade.

Sim. Entre 1998 e 2000 passei por empresas de publicidade onde, ao fim de algum tempo, surgiu uma tendência desagradável para não pagarem salários e depois falirem. Talvez a ordem tenha sido inversa. Não sei se alguém investigou.

Voltei à construção civil e fui pintor. Curiosamente, foi uma das profissões de que mais gostei.

Porquê?

Porque havia um resultado. Chegávamos a uma obra em bruto. Um mês depois, as paredes estavam pintadas, as madeiras envernizadas, os portões e grades tratados, o telhado, a chaminé, tudo terminado.

Afastava-me e pensava: fui eu que fiz isto. É uma sensação extraordinariamente simples. Criar uma coisa que antes não existia e depois poder olhar para ela.

Talvez escrever venha parcialmente daí. Só há uma diferença importante. Quando terminamos uma casa, ninguém aparece seis meses depois a dizer que o segundo quarto precisava de mais desenvolvimento de personagem.

Porque deixou então a construção?

Porque aos vinte e três anos decidi começar outra vez. Gostava do trabalho, mas sentia falta de estímulo intelectual. Comecei a sentir que precisava de outras conversas.

Fui trabalhar para telecomunicações. Entrei na universidade em Antropologia. E fiz um curso de ator. Porque, aparentemente, uma vida de cada vez nunca me pareceu suficiente.

Porquê representação?

Queria ser realizador de cinema. Pensei que, se um dia tivesse de dirigir atores, seria útil perceber o que faziam. É uma precaução que devia ser obrigatória em várias profissões.

Adorei o curso. Fiz castings e cheguei a receber um convite para fazer teatro profissional. Recusei. Os ensaios eram pela noite dentro, eu estava numa relação séria e queria comprar casa.

Escolhi estabilidade. Pouco depois fui trabalhar para a banca. Não há metáfora aqui. Foi mesmo isso.

Arrepende-se?

Não. Mas às vezes penso naquela versão de mim que entrou pela outra porta.

Todos temos vidas que não vivemos. São geralmente excelentes porque nunca tiveram tempo de correr mal.

Ficou quase sete anos na banca.

Sim. Entretanto terminou uma relação, começou outra, tive filhos, a vida fez aquilo que normalmente faz quando achamos que finalmente percebemos o funcionamento do sistema.

Depois saí da banca e fui trabalhar para uma empresa espanhola como consultor, com projetos em Portugal, Espanha e Brasil. Mais tarde passei para vendas de soluções de IT e telecomunicações a nível executivo.

E então chegou 2010. Outra crise. Já começava a suspeitar que era pessoal.

Foi então que emigrou?

Sim. Trabalhava, mas o dinheiro não chegava. Há uma crença muito confortável segundo a qual quem trabalha terá necessariamente uma vida financeiramente segura. É especialmente popular entre pessoas financeiramente seguras.

Fui viver para Inglaterra. Procurei trabalho na minha área. Não consegui. O dinheiro começou a acabar e concluí que manter o orgulho profissional até à insolvência seria intelectualmente interessante, mas pouco prático.

Fui trabalhar como barman. Inspirado pelo filme Cocktail. A ficção tem consequências.

O filme sugeria que ser barman envolvia música, garrafas a voar, mulheres bonitas e eventualmente uma praia tropical. A realidade acrescentou clientes bêbados, limpezas, turnos intermináveis e salário mínimo. Tom Cruise omitiu detalhes importantes.

Inglaterra mudou-o?

Muito. Primeiro porque tive de começar novamente do zero. Outro país, outra cultura, outro clima.

Lembro-me perfeitamente de um dia apanhar uma molha monumental e ficar furioso — com a chuva, com Inglaterra, provavelmente com o Atlântico Norte. O meu irmão perguntou porque estava tão chateado. Disse-lhe que estava farto da chuva.

Ele respondeu: — Porquê? Pensa como os ingleses. É só água.

E fez-se luz. Eu estava emocionalmente zangado com água. A partir desse dia, o clima praticamente deixou de determinar o meu humor. Algumas pessoas encontram iluminação espiritual num mosteiro. Eu encontrei-a encharcado no Reino Unido.

Também descobriu o que é ser estrangeiro.

Sim. Pela primeira vez senti claramente que podia entrar num espaço e ser imediatamente identificado como "o outro". Cheguei a ouvir: — Branco? Tu és castanho. Nós é que somos brancos.

Foi estranho. Até então eu nunca tinha precisado de pensar seriamente na minha cor. De repente alguém tinha feito essa avaliação por mim.

Não comparo a minha experiência com aquilo que pessoas vítimas de racismo profundo e sistemático vivem durante décadas. Mas bastou para compreender uma coisa muito simples: estudar o outro é diferente de ser o outro. A Antropologia devia incluir trabalho de campo obrigatório numa fila de imigração.

Conheceu pessoas que acabaram por influenciar a sua escrita?

Muitas. Com histórias extraordinárias. Algumas aparecerão nos livros. É onde prefiro falar delas. Há pessoas reais que não precisam de saber que um escritor as achou interessantes. É uma forma de proteção mútua.

Também não é por acaso que O Príncipe Nigeriano começa em Cambridge. A ficção costuma fingir que inventou tudo. É uma mentirosa competente.

Porque regressou a Portugal?

Por amor. Depois de décadas a aprender com erros, crises, falências, relações, empregos e mudanças de país, concluí que seria sensato tomar uma decisão importante com base numa emoção.

Regressei. Reconstruí novamente a vida. Primeiro como empresário. Depois como professor. Começa a existir um padrão preocupante nesta entrevista.

Ter filhos foi importante?

Foi provavelmente uma das coisas mais marcantes da minha vida. Quase aposto que me lembro dos orgasmos que lhes deram origem. Pareceram mágicos.

O nascimento é ainda mais difícil de descrever. A emoção é tão intensa que qualquer tentativa de a explicar começa imediatamente a soar a literatura barata.

Mas é talvez assim: quando nasce um filho, o coração enche-se de calor e de luz. E aparece uma mão. Essa mão fica agarrada ao coração para sempre. Enquanto tudo está bem, quase não a sentimos. Basta imaginar um perigo, uma doença, um acidente, e a mão aperta.

Ter filhos é permitir que uma parte vital de nós passe a andar pelo mundo sem proteção adequada. Uma ideia aterradora. Recomendo.

Quais são os seus maiores defeitos?

Quanto tempo temos?

Sofro de ansiedade. António Variações resumiu bastante bem o problema: só estou bem onde não estou. Posso estar num sítio perfeitamente agradável e pensar que devia estar noutro. Chego ao outro e começo a reconsiderar. É um sistema bastante eficaz para estar insatisfeito em vários locais no mesmo dia.

Também tenho medo da rejeição. Mais do que gostaria. A rejeição atinge-me o ego com uma eficiência que considero francamente desnecessária. Sei que é irracional. Mas explicar racionalmente uma emoção é um pouco como entregar um regulamento de trânsito a um javali. Ele pode ouvi-lo. Não significa que vá colaborar.

E conflitos?

Evito-os. Se alguém começa a discutir comigo, a minha tendência é virar costas e ir embora. Gostaria de dizer que é devido a uma profunda filosofia pacifista. Não é.

Existe uma parte de mim que sei poder tornar-se extremamente violenta. Nunca quero vê-la. Também não quero que os outros a vejam. Portanto, afasto-me.

Às vezes fugir de uma discussão é cobardia. Outras vezes é apenas saber onde guardamos os fósforos.

Considera-se racional?

Mais do que algumas pessoas. Menos do que imagino. Provavelmente é a resposta correta para quase toda a humanidade.

Gostamos muito da ideia de que somos criaturas racionais. Tomamos decisões emocionais e depois passamos algum tempo a construir argumentos para provar que eram inevitáveis. Primeiro sentimos. Depois contratamos o cérebro como advogado. E ele normalmente aceita o caso.

É uma das coisas que mais me fascina nos seres humanos. Queremos desesperadamente ser criaturas de razão enquanto somos conduzidos por emoções que muitas vezes nem sequer sabemos nomear. É quase comovente. E produz excelentes histórias.

É por isso que escreve sob heterónimo?

Por várias razões igualmente nobres. Primeira: dá-me liberdade para escrever sobre aquilo que quiser. Segunda: permite-me satirizar religiões, ideologias, instituições, certezas e outras coisas que as pessoas levam suficientemente a sério para eventualmente quererem bater em alguém. Terceira: protege quem me é próximo.

Se decidir escrever sarcasticamente sobre uma religião, quero que a consequência seja alguém não comprar o livro. Não alguém procurar a minha família. Há limites para o marketing literário.

O anonimato cria distância entre a obra e as pessoas que nunca pediram para participar nela.

É apenas proteção?

Não. Também é liberdade. Isul Sacul pode dizer coisas que uma identidade pública pensaria duas vezes antes de dizer. Não porque sejam necessariamente ofensivas. Mas porque hoje estamos demasiado interessados em saber quem disse uma coisa antes de decidirmos se aquilo que foi dito faz sentido.

O heterónimo permite-me tentar inverter essa ordem. Primeiro o texto. Depois, se ainda for realmente necessário, o autor. De preferência muito depois.

Então quem é Isul Sacul?

Uma máscara. Mas todas as máscaras revelam alguma coisa. Talvez até revelem mais do que escondem.

Isul Sacul permite-me observar a humanidade com alguma distância, incluindo aquela parte da humanidade que vejo todas as manhãs ao espelho.

Não quero escrever como alguém que descobriu a verdade. Desconfio imediatamente de pessoas que descobriram a verdade. Normalmente vêm acompanhadas de um livro sagrado, um manifesto político ou um curso online.

Prefiro escrever como alguém que encontrou algumas perguntas interessantes e concluiu que as respostas humanas são frequentemente demasiado ridículas para não merecerem literatura.

E onde termina a pessoa e começa Isul Sacul?

Não sei. E espero nunca descobrir completamente.

Talvez Isul Sacul seja apenas a versão de mim que tem autorização para dizer em voz alta aquilo que o resto de mim pensa em silêncio. Ou talvez seja o contrário. Talvez eu seja apenas o indivíduo que trata das tarefas administrativas enquanto ele escreve.

De qualquer forma, o acordo funciona. Ele fica com os livros. Eu fico com as contas. Parece-me bastante injusto. Mas já assinei.

II Paixão Em preparação

Esta parte ainda está a ser escrita.

Brevemente — quando a paixão permitir

III Glória Em preparação

A glória, ao que parece, também tem os seus atrasos.

Brevemente — quando a glória chegar

Obras

01

Romance · Publicado · Amazon & outros

O Príncipe Nigeriano
The Nigerian Prince

Será o Amor uma Fraude? Um email. Um príncipe. Uma proposta difícil de acreditar. Para Joanna Elizabeth Montgomery, aquilo que começa com todas as características de uma fraude transforma-se numa viagem que a obrigará a questionar muito mais do que a identidade do homem do outro lado da mensagem.

Ficção
02

Romance · Em progresso

As Entrevistas de Ben Dover

Ben Dover tem o dom raro e inconveniente de conseguir falar com os mortos. Quando decide entrevistar as figuras mais veneradas da história humana, descobre que nenhuma delas pediu para ser venerada — e que a maioria ficaria bastante perturbada em ver o que foi feito em seu nome. Uma investigação jornalística ao além, com todas as limitações éticas que isso implica.

Sátira religiosa
03

Série · Oito volumes · Em progresso

As Sete Sibilas
Seven Sisters

Oito livros sobre bruxaria — o que já é em si uma contradição aritmética que o autor recusa explicar. No centro da série, as forças femininas e masculinas tal como existem na natureza: não como opostos que se combatem, mas como polaridades que se procuram, se afastam e, raramente, se encontram. É sobre poder. Sobre equilíbrio. E sobre o que acontece quando nenhum dos dois é possível.

Fantasia · Série
04

Livro infantil · Ilustrado

Contos Coloridos do Arco-Íris
Rainbow Colourful Tales

Um livro de colorir com poemas sobre as cores — criado para um sobrinho específico, com toda a seriedade que um adulto consegue reunir quando decide fazer algo verdadeiramente inútil e bonito. Cada cor tem a sua história, o seu temperamento e a sua teoria sobre o universo. O leitor tem os lápis. O resultado é responsabilidade de ambos.

Infantil · Poesia
05

Novela gráfica · Noir

KDK — Lendas do Bairro
Tales of the Hood

Um bairro. Uma adolescência. Personagens que o tempo não apagou — apenas tornou mais nítidos, como fotografia revelada tarde de mais. Drogas, sexo, rock and roll e as outras coisas que os adultos fingem que não aconteceram para que os jovens possam descobri-las sozinhos. Em estilo noir, porque algumas histórias ficam melhor com pouca luz e muita sombra.

Novela gráfica · Noir
06

Ensaio · Delírio filosófico

Viagem Alucinante ao Interior da Alma

Uma exploração do que nos vai pela cabeça — nos dias loucos e nos dias normais, que muitas vezes são a mesma coisa vista de ângulos diferentes. Parte filosofia, parte confissão, parte cartografia de territórios que ninguém mapeou porque toda a gente estava demasiado ocupada a fingir que sabia onde estava. Um guia de viagem para o único lugar a que nunca deixamos de regressar.

Filosofia · Ensaio
07

Contos · Para ouvir antes de dormir

Mil e Uma Histórias
One Thousand and One Stories

Contos escritos para serem lidos a filhos antes de dormirem — o que significa que foram escritos para crianças, mas também para aquele momento específico em que um adulto está sentado na beira de uma cama, a tentar atrasar o silêncio. Cada história é curta o suficiente para que os olhos se fechem antes do fim. Ou depressa o suficiente para que peçam outra.

Contos · Infantil

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* O autor responde. Eventualmente. Quando o humor lho permite.